Visão

"Em uma atmosfera regada à base de Poesia, introspecção e um certo tom de melancolia, os versos do Guilherme mostram imagens dotadas de intensa subjetividade e com certa influência becketiana, posto que as mesmas carregam um tom de absurdez, à medida que apresentam símbolos que, providos de aparente desconexão, criam um universo onde a fragilidade humana - tal qual seu aspecto absurdo - pode ser apresentada ao leitor por meio de figuras de linguagem que recriam o universo da subjetividade do indivíduo por meio da exposição de um eu-lírico marcado por couraças inseridas em uma série de contextos imagéticos peculiares e marcantes. Sendo assim, os versos deste jovem poeta tocam aqueles que apreciam sua obra." - Renato Ziggy

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Um drama

Olhou para o lado no meio da madrugada.

É fato e direito que eu possa transpor minhas vontades e desejos aos meus personagens. Mas não dou conta de tê-los, sempre deixo escapar um fio por menor que seja, e aí acabo matando minhas histórias, ou que ainda existe dentro delas. A saída é sempre descrever a morte, mas existem histórias que já nascem mortas... Qual é o direito de uma coisa que nunca nasce?

Foi quando percebeu que estava em um lugar pouco comum. E ele pensava que para ser um homem apenas lhe bastava a dignidade e um trabalho. Um homem para ser pleno precisa de um trabalho, um rádio de pilha, alguns discos e um quarto. Dos quatro ele possuía todos. Seus olhos anunciaram a entrada algo desconhecido. Ele fraquejou, teve medo e não se moveu. Não é possível criar forças durante a madrugada. Ele se viu ameaçado pelo sonho que se dispôs a enfrentar.

Lembro-me que me disseram que é a ordem natural das coisas que elas tenham um fim necessário. Mas para existir um fim é preciso um começo e um meio. É como se me prendesse aos dois últimos e pouco restasse. Quando consigo chegar até o final tento encostar e apalpar seu corpo quente, mas não dou conta de tê-lo. Talvez seja por isso que consiga escrever duas páginas, no máximo.

A casa estava vazia, antes de entrar percebeu o medo de encontrá-la assim, sem ter sequer o tempo de avisar: ‘’vem, que o café já está na mesa!’’. Quis ir de encontro àquela imagem fixa que se encontrava atrás dos móveis, das louças, das janelas e armários. Não sabia se teria vontade o suficiente para fazer o sonho ganhar força pela madrugada. Sua morte estava praticamente anunciada quando foi em direção das imagens. Olhou novamente para o lado e tudo estava bem, tudo fazia sentido. Porém, aos poucos se despedaçava por sua decisão. Atordoado, deixou o curso das coisas correrem, o máximo seria morrer.

O contato rompeu a pele lisa e jorrou sangue no tapete.

O concreto abriu e não saiu nada.

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