Olhou para o lado no meio da madrugada.
É fato e direito que eu possa transpor minhas vontades e desejos aos meus personagens. Mas não dou conta de tê-los, sempre deixo escapar um fio por menor que seja, e aí acabo matando minhas histórias, ou que ainda existe dentro delas. A saída é sempre descrever a morte, mas existem histórias que já nascem mortas... Qual é o direito de uma coisa que nunca nasce?
Foi quando percebeu que estava em um lugar pouco comum. E ele pensava que para ser um homem apenas lhe bastava a dignidade e um trabalho. Um homem para ser pleno precisa de um trabalho, um rádio de pilha, alguns discos e um quarto. Dos quatro ele possuía todos. Seus olhos anunciaram a entrada algo desconhecido. Ele fraquejou, teve medo e não se moveu. Não é possível criar forças durante a madrugada. Ele se viu ameaçado pelo sonho que se dispôs a enfrentar.
Lembro-me que me disseram que é a ordem natural das coisas que elas tenham um fim necessário. Mas para existir um fim é preciso um começo e um meio. É como se me prendesse aos dois últimos e pouco restasse. Quando consigo chegar até o final tento encostar e apalpar seu corpo quente, mas não dou conta de tê-lo. Talvez seja por isso que consiga escrever duas páginas, no máximo.
A casa estava vazia, antes de entrar percebeu o medo de encontrá-la assim, sem ter sequer o tempo de avisar: ‘’vem, que o café já está na mesa!’’. Quis ir de encontro àquela imagem fixa que se encontrava atrás dos móveis, das louças, das janelas e armários. Não sabia se teria vontade o suficiente para fazer o sonho ganhar força pela madrugada. Sua morte estava praticamente anunciada quando foi em direção das imagens. Olhou novamente para o lado e tudo estava bem, tudo fazia sentido. Porém, aos poucos se despedaçava por sua decisão. Atordoado, deixou o curso das coisas correrem, o máximo seria morrer.
O contato rompeu a pele lisa e jorrou sangue no tapete.
O concreto abriu e não saiu nada.