Visão

"Em uma atmosfera regada à base de Poesia, introspecção e um certo tom de melancolia, os versos do Guilherme mostram imagens dotadas de intensa subjetividade e com certa influência becketiana, posto que as mesmas carregam um tom de absurdez, à medida que apresentam símbolos que, providos de aparente desconexão, criam um universo onde a fragilidade humana - tal qual seu aspecto absurdo - pode ser apresentada ao leitor por meio de figuras de linguagem que recriam o universo da subjetividade do indivíduo por meio da exposição de um eu-lírico marcado por couraças inseridas em uma série de contextos imagéticos peculiares e marcantes. Sendo assim, os versos deste jovem poeta tocam aqueles que apreciam sua obra." - Renato Ziggy

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

No dia 25 de janeiro, Clara eclodiu para o mundo.

Durante o procedimento tive medo de ficar na sala de operações, muitos achavam que seria pelo medo do sangue. O que incomodava, e incomodava mesmo, era a dor que tudo aquilo aparentava conter. Não tenho certeza do quanto de sofrimento aguentaria suportar. Já suportei sofrimentos demais, hoje prefiro encher o copo de cerveja ou acender cigarros.

Apesar de tudo fui capaz de permanecer na sala, num vestido verde estéril. Manti-me resoluto, para qualquer tragédia que poderia ter que lidar. E ali outra vida nascia com dor, como quando rasga-se a víscera do pulmão.

Clara percorreu o corredor, de onde foi encaminhada até o berçário, sendo pesada logo em seguida. Foi nesse momento que tivemos o nosso primeiro contato. Segurava-a enquanto os médicos drenavam sua via respiratória e secavam sua pele. Eu a cobria. Ela estava inquieta e chorosa. A pesagem havia ferido sua sensibilidade nua, mesmo assim sorri ao ouvir o seu choro de protesto.

Levei meus dedos até o seu rosto, quando a mão pequena encobriu um de meus dedos com muita força.

Sussurrei: "Aguente firme, bebê. Aguente firme".

Eu dizia isso para ela e para mim mesmo.