Clara corria, como de rotina, na parte da manhã no entorno da praia. O pensamento estava um pouco distante, cantava baixinho uma música intercalada. Já era hábito: um pouco de exercício pela manhã, um café bem balanceado. Um momento, uma pausa e lá estava... Uma gaivota estendida no chão. A asa um pouco torta, uma porção de outras gaivotas no céu.
Ela não entendeu muito bem. Talvez as outras gaivotas estivessem velando o corpo daquela estirada, ainda viva - e elas emitiam um som muito triste lá de cima. Alguma coisa, talvez secreta, ou apenas da ordem da vida, ainda a prendia ali. O corpinho frágil lutando sem saber muito bem a causa – a carne inconsciente. Talvez a ave estivesse ali para chorar a sua inutilidade ou apenas o desespero da situação. As outras continuavam ali a pairar as suas órbitas cada vez mais vazias. O que faria ela dentro daquele silêncio de lamentos murmurados? Ela apenas olhava, o pensamento já não estava distante.
Estando sem voz dentro de outras tantas vozes do céu, um outro acontecimento paralisou o instante: A pequena gaivota, contorcida, rebateria pela última vez as suas asas. As outras gaivotas seguiram seu rumo. Clara ficaria ali por mais algum tempo, sem entender muito bem. Ela levantou, arqueou-se novamente para a corrida, correu.
Nada mudaria em sua vida naquele fim de tarde.
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